Medo pra quê?

Eu demorei quase um ano pra decidir parar de tingir o cabelo.

Toda vez que eu pensava no assunto eu sentia medo. Medo mesmo, físico. Aquele frio na barriga de quem vai fazer algo errado. Me olhava no espelho, a raiz branca crescendo no cabelo tingido de castanho escuro, e sofria de uma ansiedade louca. Queria largar a tinta mas morria de medo.

A pergunta que um dia me fiz foi: MEDO DE QUÊ?

Encara esse medo, mulher! :D

Encara esse medo, mulher! :D

Nem eu sabia. Era um medo tão intrincado, tão aprofundado, tão inconsciente, que ele se manifestava sem nem passar pelo meu racional. Era do fundo da alma pro meio da barriga, sem nem passar pelo cérebro. Eu então comecei a refletir mais sobre ele, sobre o que as pessoas falavam, sobre os comentários que eu ouvia toda vez que eu jogava no ar quase como brincadeira que se eu pudesse pararia de tingir o cabelo. E percebi que é feita uma “lobotomia” nas mulheres pra que elas não queiram envelhecer. Claro que os homens também não querem envelhecer, mas para eles a idade está mais ligada ao amadurecimento do que à velhice. Já para as mulheres não: se você envelhece você perdeu, deu errado, desleixou.

Essa lobotomia é feita na menina que é elogiada por ser novinha. Na adolescente que é enaltecida porque está na flor da juventude. Através das revistas de adolescentes que só mostram mulheres também adolescentes e nunca tratam com naturalidade do envelhecer, fazendo as mães-tias-avós parecerem extraterrestres. E piora muito com as revistas para mulheres adultas que vendem “fórmulas mágicas” para ficar jovem sempre, veladamente condenando a idade; vendem todo tipo de produto e ideia com modelos magras, brancas e adolescentes, com fotos muito bem tiradas e tratadas, dando a entender que só é digna de beleza quem é daquele jeito; e, claro, impõem cabelos incríveis que custam horas de preparo das modelos e hair stylists como se fossem a coisa mais acordei-assim do mundo. Através da televisão, com mulheres sempre “jovens”, mesmo que à base de muitas plásticas e tintura.

Só uma observação: há alguns anos rolou um papo que a Globo estava com dificuldade de escalar atrizes para papéis de avós em suas obras pois todas as atrizes com idades para serem avós estavam lotadas botox e plásticas, todas tentando esticar suas juventudes até o final da corda. Não sei se foi verdade, mas se você prestar atenção, quantas atrizes consagradas se dão a liberdade da Cássia Kis Magro e da Vera Holtz de aceitar a pele e os cabelos naturais e poderem aceitar todo tipo de personagem que sua idade lhes presenteia?

Voltando. Me dei conta que tinha medo e não sabia de quê. E quando me dei conta que o medo era “de envelhecer” percebi que era um mega paradoxo, já que eu era nova – e mais, que eu não tinha medo de envelhecer.

Sempre acreditei que a gente é o que a gente vive. Todas as pessoas que passam pela nossa vida, todos os momentos (bons e ruins) que vivemos, todos os lugares que conhecemos – isso forma o que somos. Então se você não envelhece você não viveu. Se você não consegue assumir quem você é de verdade, naturalmente, você precisa cuidar de sua auto-estima. Porque todo mundo envelhece. TODO MUNDO. Inclusive você. E fique feliz por isso porque a outra alternativa ao envelhecimento é a morte.

Então no dia que me dei conta que eu estava refém de um “padrão social impossível”, que eu estava com medo de algo que conscientemente eu não tinha medo, e que eu poderia apenas tentar um novo visual (sem compromisso, sem gravidade), eu acalmei e o medo baixou.

Confesso que o medo não passou de uma vez só. É tudo muito profundo pra ser superado assim de uma hora pra outra. Não existe mágica. É uma desconstrução diária – afinal foi uma construção diária, durante anos. E os tijolinhos ainda estão dentro de mim, ainda me pego muitas vezes me comparando com modelos irreais, me cobrando por não ser perfeita como me mandam ser. Mas sei que já desconstruí muito.

O importante disso é que essa liberdade traz muita felicidade. Sério. Se livrar do medo é uma delícia! Saber quem se é, do que gosta de verdade, ver outras cores, outras formas, outros estilos. Tentar coisas novas. Procurar o que te faz feliz!

Então eu te pergunto e você me responde: medo pra quê? ;)

Quem manda na sua cabeça?

Ontem estive numa filial das Lojas Americanas aqui do Rio para comprar uma maquiagem. Quando cheguei ao caixa, enquanto passava minha compra, a moça que me atendeu puxou papo:

– Lindo seu cabelo.

Agradeci sorrindo, enquanto ela me olhava com atenção.

– É natural ou de salão?

– Natural.

– Eu tinha feito o meu igual ao seu. Estava lindo, com luzes platinadas, mas eles mandaram eu tirar.

Tomei um baque. Não estava esperando a frase. Olhei atentamente pro cabelo dela, com luzes tradicionais, loiras. Seu tom soava frustrado. Reagi de pronto.

– Como é que é?! Mandaram você tirar? Quem? A Loja?

– Shhhh… – Pediu ela, olhando para os lados, movimentando as mãos para que eu falasse mais baixo. – É. Eles não aceitaram meu cabelo, tive que tingir.

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Como assim te mandaram tingir?

– Mas é o SEU cabelo! Como é que eles te mandam tingir?! Como é que pode isso?!

– Pois é. Eu estava amando meu cabelo como o seu. Deu um trabalhão pra ficar assim, mas tive que tirar. Fazer o quê.

Me despedi dela, que ainda elogiou meu cabelo mais uma vez, e fui embora incrédula.

Quando tive o bate-papo com a Renata Senile, do Canal Conexão Feminista, falamos sobre a imposição do mercado pela aparência “padrão” e como algumas mulheres tinham contado no canal que não podiam assumir seus cabelos por causa de seus empregos. Eu, particularmente, nunca tinha presenciado isso, não para “cabelos brancos”. No caso dessa moça, brancos artificiais, mas se fosse o meu teriam me forçado a tingir da mesma forma. E quem não pode ficar desempregado não pode se dar o luxo de peitar chefe abusivo.

Fiquei pensando na situação, tentando entender o panorama. Ela não é caixa, ela está caixa – é o trabalho dela, não o que ela é na vida. Fora dali ela tem amigos, parentes, desejos, estilo, tem uma vida – e não veste uniforme. Pensei que então ela tem todo o direito de ter seu cabelo preferido, desde que mantenha seu uniforme enquanto representa a empresa. Já seu chefe deve se preocupar se seus funcionários não vão “afugentar” os clientes de alguma forma, seja por seu comportamento ou por seu visual, garantindo que o atendimento seja o melhor possível. Isso provavelmente passa por “vetar” comportamentos e visuais agressivos, como muitos piercings no rosto e cortes/cores de cabelo radicais, por exemplo (uma velhinha pode se sentir “acuada”, talvez). Ele quer que sua loja tenha o mínimo de ruídos possíveis na comunicação funcionários-clientes.

Pesando os dois lados, achei que a empresa foi abusiva com a funcionária, o que me deixou muito incomodada.

E deixo perguntas, pra que a gente reflita junt@s: qual é o limite dessa “intromissão” da empresa na vida d@s funcionári@s? E por que o cabelo branco incomoda, já que é uma cor que pode ocorrer naturalmente nos cabelos (diferente de verdes, azuis ou roxos, por exemplo)? E por que não aceitar um cabelo azul/roxo/rosa se @ funcionári@ estiver devidamente uniformizad@? Como combater esse tipo de abuso?

Gris ou não Gris – eis a questão.

Desde a matéria do Hypeness, dO Dia e, depois, do G1, muita gente me procurou e procurou o blog. Mulheres que, como eu, sentem vontade de se libertar da pressão para tingir o cabelo.

É preciso deixar uma coisa clara: não tem nada de errado em tingir o cabelo. Se você sente prazer com o processo e com o resultado, maravilha! Curta seu momento em casa ou no salão. Curta seus fios coloridos – de qual cor você escolher. O importante é que você está feliz.

Mas se você acha que seu cabelos terem cores artificiais não é estímulo suficiente para que você passe por horas de tingimento uma ou duas vezes ao mês, então pare.

Entenda uma coisa: você não precisa fazer isso. Você pode. Se você quiser. E a pergunta é: você quer?

O que eu quero dizer é que tingir o cabelo (e tudo mais o que você faz com o seu corpo) tem que ser uma escolha. Você tem o direito de refletir sobre o assunto, entender o quanto isso te afeta positiva ou negativamente, e tomar a decisão que vai te deixar mais feliz. Independente dos outros. Independente do que você está acostumada a achar que é o “certo”. Certo é o que vai te fazer feliz.

A vida é curta demais pra viver aprisionada a medos e infelicidades.

Ainda mais quando estamos falando de coisas completamente alteráveis, como cabelos. Se você não detonar o seu couro cabeludo, você poderá fazer o que quiser com seu cabelo em curtos períodos de tempo. Cortar, tingir, parar de tingir, deixar crescer. A escolha é sua.

Então vamos começar por aí. O que é mais importante pra você: se sentir livre do tingimento ou manter a cor que você nasceu ou escolheu ter?

No meu caso, eu detestava tanto o processo de tingimento e estava tão infeliz com o resultado dele no meu cabelo que, apesar do medo, decidi que queria tentar não tingi-lo. Não foi uma decisão fácil. Demorei mais de um ano refletindo sobre o assunto. Não conhecia ninguém por perto que tivesse minha idade e tantos cabelos brancos quanto eu. A única referência que eu encontrei foi a jornalista Sarah Harris, editora de moda da Vogue inglesa, que tem a minha idade e longos cabelos gris. Me senti encorajada por ela. Ela fez com que eu não me sentisse louca sozinha. Porque isso vai sim acontecer. Em algum momento você vai se sentir louca de estar na contra-mão do mundo. Você vai se perguntar por que está fazendo isso. Você vai se olhar no espelho e se sentir feia. Porque você se acostumou com o mundo dizendo que cabelos gris são feios, que mulheres jovens não podem ser gris, que não é possível sair fora do que o mundo conhece como “normal”. Você vai bambear na decisão, especialmente antes de terminar a transição da tinta pro gris. Vai acordar de manhã, se olhar no espelho e perguntar quem é a pessoa que você está olhando. Afinal, você passou mais de 30 anos olhando para uma mulher de cabelos castanhos (ou pretos, ou loiros, ou ruivos) e, do nada, ela não existe mais. Você vai ter que se acostumar a outra você.

Todo mundo precisa de referência. A minha foi Sarah Harris.

Todo mundo precisa de referência. A minha foi Sarah Harris.

Não quero desanimar ninguém com esse papo. Ao contrário. Estou sendo realista pra dar a real noção do que vai acontecer. Você vai conhecer outra pessoa, outra você. E se você vai gostar dela ou não, você só vai descobrir tentando.

Porque também tem isso. Quando falamos em se libertar da tintura, não precisa ser pra sempre. Você tem todo o direito de não gostar. De pensar que você prefere mesmo tingir. Não tem problema mudar de ideia. Não tem problema não gostar. Mas tem sim problema querer e não tentar. Porque você vai sempre ficar com a sensação que nem tentou, que não teve coragem, que não aguenta mais fazer o que faz mas não teve forças… para ser você.

Sempre me perguntam se eu gosto do meu cabelo como está hoje. Eu respondo que sim, porque é verdade. Mas eu tenho a tranquilidade de saber que eu posso mudar de opinião quando eu quiser. Porque o cabelo é meu, o corpo é meu, a vida é minha. Eu só tenho que me sentir feliz. Senão, de que adianta?

E você, está feliz?

Se você souber inglês ou se entender bem com o google tradutor, abaixo vai o link de uma entrevista que a Sarah Harris deu para o jornal The Telegraph, contando sobre seu gris.

http://www.telegraph.co.uk/women/life/ive-had-grey-hair-since-i-was-16/