Quem manda na sua cabeça?

Ontem estive numa filial das Lojas Americanas aqui do Rio para comprar uma maquiagem. Quando cheguei ao caixa, enquanto passava minha compra, a moça que me atendeu puxou papo:

– Lindo seu cabelo.

Agradeci sorrindo, enquanto ela me olhava com atenção.

– É natural ou de salão?

– Natural.

– Eu tinha feito o meu igual ao seu. Estava lindo, com luzes platinadas, mas eles mandaram eu tirar.

Tomei um baque. Não estava esperando a frase. Olhei atentamente pro cabelo dela, com luzes tradicionais, loiras. Seu tom soava frustrado. Reagi de pronto.

– Como é que é?! Mandaram você tirar? Quem? A Loja?

– Shhhh… – Pediu ela, olhando para os lados, movimentando as mãos para que eu falasse mais baixo. – É. Eles não aceitaram meu cabelo, tive que tingir.

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Como assim te mandaram tingir?

– Mas é o SEU cabelo! Como é que eles te mandam tingir?! Como é que pode isso?!

– Pois é. Eu estava amando meu cabelo como o seu. Deu um trabalhão pra ficar assim, mas tive que tirar. Fazer o quê.

Me despedi dela, que ainda elogiou meu cabelo mais uma vez, e fui embora incrédula.

Quando tive o bate-papo com a Renata Senile, do Canal Conexão Feminista, falamos sobre a imposição do mercado pela aparência “padrão” e como algumas mulheres tinham contado no canal que não podiam assumir seus cabelos por causa de seus empregos. Eu, particularmente, nunca tinha presenciado isso, não para “cabelos brancos”. No caso dessa moça, brancos artificiais, mas se fosse o meu teriam me forçado a tingir da mesma forma. E quem não pode ficar desempregado não pode se dar o luxo de peitar chefe abusivo.

Fiquei pensando na situação, tentando entender o panorama. Ela não é caixa, ela está caixa – é o trabalho dela, não o que ela é na vida. Fora dali ela tem amigos, parentes, desejos, estilo, tem uma vida – e não veste uniforme. Pensei que então ela tem todo o direito de ter seu cabelo preferido, desde que mantenha seu uniforme enquanto representa a empresa. Já seu chefe deve se preocupar se seus funcionários não vão “afugentar” os clientes de alguma forma, seja por seu comportamento ou por seu visual, garantindo que o atendimento seja o melhor possível. Isso provavelmente passa por “vetar” comportamentos e visuais agressivos, como muitos piercings no rosto e cortes/cores de cabelo radicais, por exemplo (uma velhinha pode se sentir “acuada”, talvez). Ele quer que sua loja tenha o mínimo de ruídos possíveis na comunicação funcionários-clientes.

Pesando os dois lados, achei que a empresa foi abusiva com a funcionária, o que me deixou muito incomodada.

E deixo perguntas, pra que a gente reflita junt@s: qual é o limite dessa “intromissão” da empresa na vida d@s funcionári@s? E por que o cabelo branco incomoda, já que é uma cor que pode ocorrer naturalmente nos cabelos (diferente de verdes, azuis ou roxos, por exemplo)? E por que não aceitar um cabelo azul/roxo/rosa se @ funcionári@ estiver devidamente uniformizad@? Como combater esse tipo de abuso?