Quem manda na sua cabeça?

Ontem estive numa filial das Lojas Americanas aqui do Rio para comprar uma maquiagem. Quando cheguei ao caixa, enquanto passava minha compra, a moça que me atendeu puxou papo:

– Lindo seu cabelo.

Agradeci sorrindo, enquanto ela me olhava com atenção.

– É natural ou de salão?

– Natural.

– Eu tinha feito o meu igual ao seu. Estava lindo, com luzes platinadas, mas eles mandaram eu tirar.

Tomei um baque. Não estava esperando a frase. Olhei atentamente pro cabelo dela, com luzes tradicionais, loiras. Seu tom soava frustrado. Reagi de pronto.

– Como é que é?! Mandaram você tirar? Quem? A Loja?

– Shhhh… – Pediu ela, olhando para os lados, movimentando as mãos para que eu falasse mais baixo. – É. Eles não aceitaram meu cabelo, tive que tingir.

img_9874

Como assim te mandaram tingir?

– Mas é o SEU cabelo! Como é que eles te mandam tingir?! Como é que pode isso?!

– Pois é. Eu estava amando meu cabelo como o seu. Deu um trabalhão pra ficar assim, mas tive que tirar. Fazer o quê.

Me despedi dela, que ainda elogiou meu cabelo mais uma vez, e fui embora incrédula.

Quando tive o bate-papo com a Renata Senile, do Canal Conexão Feminista, falamos sobre a imposição do mercado pela aparência “padrão” e como algumas mulheres tinham contado no canal que não podiam assumir seus cabelos por causa de seus empregos. Eu, particularmente, nunca tinha presenciado isso, não para “cabelos brancos”. No caso dessa moça, brancos artificiais, mas se fosse o meu teriam me forçado a tingir da mesma forma. E quem não pode ficar desempregado não pode se dar o luxo de peitar chefe abusivo.

Fiquei pensando na situação, tentando entender o panorama. Ela não é caixa, ela está caixa – é o trabalho dela, não o que ela é na vida. Fora dali ela tem amigos, parentes, desejos, estilo, tem uma vida – e não veste uniforme. Pensei que então ela tem todo o direito de ter seu cabelo preferido, desde que mantenha seu uniforme enquanto representa a empresa. Já seu chefe deve se preocupar se seus funcionários não vão “afugentar” os clientes de alguma forma, seja por seu comportamento ou por seu visual, garantindo que o atendimento seja o melhor possível. Isso provavelmente passa por “vetar” comportamentos e visuais agressivos, como muitos piercings no rosto e cortes/cores de cabelo radicais, por exemplo (uma velhinha pode se sentir “acuada”, talvez). Ele quer que sua loja tenha o mínimo de ruídos possíveis na comunicação funcionários-clientes.

Pesando os dois lados, achei que a empresa foi abusiva com a funcionária, o que me deixou muito incomodada.

E deixo perguntas, pra que a gente reflita junt@s: qual é o limite dessa “intromissão” da empresa na vida d@s funcionári@s? E por que o cabelo branco incomoda, já que é uma cor que pode ocorrer naturalmente nos cabelos (diferente de verdes, azuis ou roxos, por exemplo)? E por que não aceitar um cabelo azul/roxo/rosa se @ funcionári@ estiver devidamente uniformizad@? Como combater esse tipo de abuso?

Anúncios

8 comentários sobre “Quem manda na sua cabeça?

  1. Glauce disse:

    Prima, infelizmente isso acontece em 99℅ das empresas e somos julgados, nosso trabalho é julgado pela nossa aparencia. Para muitas empresas um cabelo azul, por exemplo, ou uma tatuagem “dizem” que não somos responsaveis e nem comprometidos com nosso trabalho. O que sempre me vem a mente quando esse tipo de abuso acontece é: por que cabelo vermelho pode? por que cabelo amarelo pode? preto também? e o roxo, o azul, o platinado nao pode? Vejo que tem muitas empresas abertas as diversidades, mas a maioria não. Até onde vai a “ignorancia” do nosso país? Creio que esse tipo de abuso nunca vai acabar. Bjos. Linda página!

    Curtir

    • Pois é, Dô. Qual o sentido de julgar a produtividade ou a competência de alguém pela aparência? Inclusive muita gente deve ser menos produtivo por se sentir triste de não poder ser “real” no trabalho.

      Mas sabe que não é exclusividade nossa, né? No papo que tive com a Noriko, que me entrevistou para o portal feminista japonês, ela contou que lá é até pior do que aqui – adolescentes podem ser modernos e ousados, mas uma pessoa adulta DE JEITO NENHUM. Então as mulheres lá tem que manter seus cabelos castanhos ou pretos quase que pra sempre (ela disse que as japonesas demoram MUITO pra assumir seus cabelos brancos). E devem ter muitos outros países que impõem esse tipo de limitação sem sentido às pessoas.

      Triste mesmo, né? Mas eu torço pra que aos poucos a gente vá abrindo esses espaços e esse tipo de coisa acabe.

      E que bom que vc gostou da página! Venha quando quiser! ;)

      Saudades!
      Bjo!

      Curtir

  2. O assédio moral é um problema sério no mercado de trabalho. Eu, de vez em quando pinto o meu, mas só quando quero e logo em seguida me arrependo, além do cheiro forte, fico com os fios a parecer palha de milho seca. Meu irmão não gosta de me ver grisalha, me olha com piedade e me pede: – minha irmã, pinte os cabelos. Eu pago! Acho um fofo, pois sei que se preocupa comigo e me quer ver feliz, pois me divorciei alguns anos e ele considera o gris de meus cabelos sinal de desleixo e depressão rsrsrsrsrsr

    Não querendo classificar ou generalizar, mas como transito em vários lugares, percebo que nas comunidades sou mais “criticada”, não é uma crítica para elas e sim uma “dica”, sugerem marcas de tintas e tal; na classe média já sou mais elogiada, não ando muito na alta, mas conheço algumas pessoas. Elas não se manifestam, talvez por me conhecerem bem e saberem que a opinião delas não vai mudar a minha, tenho um gênio de cão rsrsr

    Curtir

    • Pois é, Helene, também sinto que existe uma mudança de percepção do gris dependendo do meio. Nas áreas mais endinheiradas ou descoladas tem até bastante adeptas, geralmente as pessoas elogiam ou simplesmente ignoram de tão comum. No centro da cidade já me olham mais. E nas áreas mais populares rola mesmo um estranhamento. E imagino que deva ser muito mais difícil pra uma caixa de supermercado convencer seu chefe que isso é ok do que uma jornalista ou uma empresária. A pressão é forte.

      E tem que ter personalidade mesmo pra assumir, senão não assume. Porque as pessoas mais próximas vão questionar e muita gente vai pressionar pra voltar a pintar.

      Mas a sensação que eu tenho é que quem para não pensa em voltar. Porque é uma liberdade difícil de abrir mão! rsrs…

      Parabéns pela sua atitude! Bom saber que você está como quer e é feliz assim! :)

      Bjo.

      Curtir

  3. Érika Ursi disse:

    Elisa, tudo bem? Achei o máximo seu blog, fiquei sabendo por acaso através do Facebook, na página Hypeness.
    Minha história é bem parecida com a sua, aos 16 eu já tinha cabelos brancos e comecei a usar tonalizante, nunca usei tintura. Mas sinceramente não gostava do visual, tinha que ficar tonalizando direto, a cor oxidava e o cabelo ficava medonho. Além disso eu não curtia meu cabelo escuro. Resolvi fazer o contrário, descolorir e fazer mechas para deixar mais uniforme, e tinha que ser platinado porque eu não gostava dos tons de loiro mais amarelados. Detesto salão e só vou para cortar os cabelos e fazer mais mechas platinadas uma vez por ano. Hoje, posso dizer que a parte da frente do meu cabelo já é naturalmente quase 100% branca (rs) e eu adoro! Me identifico comigo assim, são meus cabelos brancos, sou eu, faz parte da minha personalidade.
    Muitas vezes nas conversas entre grupinhos femininos ouço comentários do tipo “mulher tem que pintar o cabelo porque cabelo branco é coisa para velha”. Já ouvi isso várias vezes e de mulheres mesmo. E não tem nada de errado em envelhecer, mas essa associação me soa preconceituosa nesses grupinhos como se envelhecer fosse um castigo. E definitivamente, cabelos brancos aparecerão mais cedo ou mais tarde, independente da idade.
    Assim como você, por vezes já elogiaram meus cabelos e quando respondo que faço mechas “brancas” porque já tenho meus cabelos brancos, muitos não acreditam. Às vezes chego a achar graça.
    Adorei seu blog e me identifiquei muito. Parabéns pela iniciativa!
    Abraço.

    Curtir

    • Oi Érika!

      Que bom que você está assumindo seu gris! A gente no começo estranha, mas depois parece que não lembra mais como era antes de ter madeixas prateadas, né? Eu às vezes vejo umas fotos de uns anos atrás, quando usava tintura, e fico impressionada como meu cabelo estava opaco e esquisito. Fico me perguntando como é que eu deixei ele ficar daquele jeito! rsrs…

      Fiquei curiosa sobre suas mechas! Se quiser manda foto e eu posto aqui: pralili@gmail.com :)

      E “deixa que digam, que pensem, que falem”: se você está feliz ninguém tem nada a ver com isso!

      Bjo!

      Curtir

  4. Realmente, é muito triste ver esse tipo de situação… Infelizmente, vivemos numa sociedade “sem noção”, que ainda julga pela aparência, e não pela competência e profissionalismo. Se essa moça for à justiça, ganharia a causa, porém ela precisa do emprego e, provavelmente, não quer se desgastar e, muito menos, perder o emprego. Eu estou deixando meus cabelos brancos aparecerem agora… devo estar somente com uns 6 dedos de raiz (o resto são luzes). A maioria, ha´um tempo atrás, achavam que era luzes… só alguns que chegavam mais perto que viam ser cabelos brancos. Alguns ousam comentar, mas ainda não ouvi críticas (na minha cara, claro, pq pelas costas, certamente já falaram mal ou fizeram algum comentário bobo)… Me pergunto, muitas vezes, pq a sociedade é assim… pq cada um não cuida de sua vida… Ainda estou lutando comigo mesma, pra ver se vou aguentar essa pressão, pois não é fácil e ainda não sei como será no meu trabalho mais pra frente… Depois de ler isso, fiquei com mais receio… onde vamos parar?! :/

    Curtir

    • Janine, não fica com receio não! Nem todo chefe é assim, tosco. Porque, pra mim, uma pessoa que não consegue aceitar a naturalidade de alguém é tosca, me desculpe.

      É uma pena mesmo ainda ter gente que pensa assim e use de seu “micro poder” para fazer outras pessoas passarem por isso. Claro que quem precisa trabalhar às vezes tem que se sujeitar a esse tipo de desmando para não perder o emprego e a fonte de renda. Mas aos poucos isso vai se dissipando. Lembra que com tatuagem também era assim e hoje em dia é até difícil achar quem não tenha pelo menos uma tatuagem no corpo. Felizmente as regras sociais mudam! ;)

      Então relaxe e curta seu gris! Seja feliz!

      Bjo.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s